Voltar ao Blog | Eletroneuromiografia 20 Marco, 2026

Síndrome do Túnel do Carpo: como diagnosticar com ENMG

Médico realizando potencial evocado somatossensitivo com eletrodo no punho do paciente

A Síndrome do Túnel do Carpo (STC) é a neuropatia compressiva mais comum e amplamente estudada na medicina. Ela ocorre quando o nervo mediano sofre compressão ao passar pelo túnel do carpo, uma estrutura anatômica localizada na região do punho.

Para compreender a síndrome, é importante entender a anatomia: o "túnel" é um canal estreito e rígido, cujo assoalho e laterais são formados pelos ossos do carpo, e o teto é coberto por uma faixa forte de tecido conectivo chamada ligamento carpal transverso. Como esse espaço é inelástico, qualquer condição que cause inchaço ou espessamento dos tendões resulta no estrangulamento do nervo mediano.

Quais são os fatores de risco e causas comuns

A compressão não ocorre por acaso. Embora muitas vezes seja idiopática, vários fatores aumentam o risco de desenvolver a STC:

  • Fatores Ocupacionais: Trabalhos que exigem movimentos repetitivos de flexão e extensão do punho, uso de ferramentas vibratórias ou digitação prolongada em má postura.
  • Condições Subjacentes: Diabetes mellitus, hipotireoidismo, artrite reumatoide e insuficiência renal.
  • Alterações Hormonais: Muito comum durante a gravidez (especialmente no terceiro trimestre) e na menopausa, devido à retenção de líquidos.
  • Fatores Anatômicos: Fraturas antigas no punho ou predisposição genética de possuir um túnel do carpo naturalmente mais estreito.

Quais são os principais sintomas e como evoluem

A progressão dos sintomas costuma ser gradual. Identificar a fase da síndrome é crucial para o tratamento:

  • Fase Inicial (Sensitiva): Formigamento ou dormência nas mãos (especialmente no polegar, indicador e dedo médio). A dor no punho pode irradiar para o braço.
  • Acroparestesia Noturna: É um sintoma clássico onde o paciente acorda no meio da noite com a mão formigando e precisa balançá-la ou colocá-la em água morna para alívio.
  • Fase Avançada (Motora): Fraqueza nas mãos, como dificuldade para segurar objetos finos ou abrir tampas. Em casos graves e crônicos, ocorre atrofia muscular na base do polegar.

Como a Eletroneuromiografia ajuda no diagnóstico

Quando um paciente apresenta esses sintomas, o médico frequentemente solicita um exame para saber se tem túnel do carpo. A Eletroneuromiografia (ENMG) dos membros superiores é o exame padrão-ouro para confirmar essa suspeita clínica, pois oferece dados objetivos que a avaliação clínica isolada não consegue fornecer.

O exame do túnel do carpo permite ao neurofisiologista:

  • Confirmar a compressão: Avalia se a condução elétrica do nervo mediano está mais lenta do que o normal ao passar pelo punho devido a danos na sua estrutura.
  • Determinar a gravidade: Classifica a síndrome em leve (apenas sensitiva), moderada (sensitiva e motora) ou grave (com perda de fibras e desinervação). Essa informação é essencial para o médico assistente decidir entre um tratamento conservador (como fisioterapia e uso de órteses) ou cirúrgico.
  • Descartar outras doenças: Ajuda a diferenciar a STC de outros problemas que causam sintomas parecidos, como compressões nervosas na coluna cervical (radiculopatias) ou polineuropatias.

Como é feito o exame

O procedimento é focado nos membros superiores e é dividido em duas etapas principais:

  • Estudo de Neurocondução: Utilizamos pequenos estímulos elétricos através de eletrodos colados na pele para medir a velocidade e a amplitude da resposta do nervo. Se o impulso demora mais do que o esperado para cruzar o punho, a compressão é confirmada.
  • Eletromiografia por Agulha: Segue-se com uma avaliação muscular utilizando uma agulha muito fina (semelhante à de acupuntura, sem aplicação de choques) inserida em músculos específicos da mão. Ela age como um microfone para verificar se há sinais de sofrimento crônico da musculatura inervada pelo nervo mediano.

O que fazer após o diagnóstico

Com o laudo em mãos, o tratamento é direcionado de forma personalizada. Casos de graus leve a moderado geralmente respondem bem a tratamentos conservadores (órteses noturnas, anti-inflamatórios e fisioterapia). Casos mais avançados ou refratários podem necessitar de tratamento cirúrgico de liberação do túnel do carpo, aliviando de forma permanente a pressão sobre o nervo.

Perguntas frequentes sobre este tema

A ENMG de membros superiores confirma gravidade da síndrome do túnel do carpo?

Sim. Além de mostrar lentificação ou bloqueio do nervo mediano no punho, o estudo permite classificar o grau (leve, moderado, acentuado) e detectar desnervação em músculos tenares em fases avançadas.

Por que dormência só nos três primeiros dedos nem sempre fecha o diagnóstico sem exame?

Radiculopatias cervicais e outras neuropatias podem imitar sintomas; a ENMG objetiva onde a condução falha, punho versus raiz, por exemplo, mudando conduta e tratamento.

Acordar à noite com formigamento na mão é um bom motivo para solicitar ENMG?

É um sintoma clássico de STC. O exame ajuda a correlacionar queixas subjetivas com dados de latência e amplitude ao cruzar o túnel do carpo.

Depois do laudo com STC confirmada, sempre é cirurgia?

Não. Graus leves e moderados frequentemente respondem a órtese, fisioterapia e medidas conservadoras; cirurgia entra quando há falha do tratamento ou acometimento motor importante, decisão sempre com seu médico assistente.

Dr. Wardislau Ferreira - Especialista em Eletroneuromiografia e Neurologia
Autor(a) Médico(a)
Dr. Wardislau Ferreira

Médico com graduação pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, residência em Neurologia e residência em Neurofisiologia Clínica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Experiência em neurologia clínica, doenças neuromusculares, doenças do sono, epilepsia e distúrbios do movimento, com atuação em hospitais de referência e participação em projetos de intervenção em saúde. Autor de artigos científicos publicados em periódicos internacionais e capítulos de livros, além de premiado em congresso internacional.

Revisão técnica: Dra. Carina Massaro

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